Uma das diferenças específicas dos blogues é a que se manifesta na expressão, muito comum, «ter um blogue». Não apenas «escrever num blogue», note-se, mas «ter um blogue»: «Ainda não tens um blogue?», pergunta-nos um dia alguém. A diferença é específica do meio (medium) na medida em que este permite que a relação de autoria do sujeito que nele escreve seja precedida de uma relação de posse: eu escrevo no meu blogue. Esta precessão ou sobreposição da posse à autoria não tem par noutros média, como é facilmente observável: a frase eu escrevo no meu blogue não é parafraseável como eu escrevo no meu jornal, por exemplo. Quer porque o jornal é, por definição, um meio colectivo, quer porque a sua realidade económica torna rara a sobreposição de posse e autoria.
O blogue parece assim realizar a utopia de uma posse universal dos média, como se cada um de nós pudesse vir enfim a dispor do seu meio de comunicação. «Pessoal e transmissível», dir-se-ia. Porque esta aparente privatização do meio ocorre num espaço público mediático definido pela sua universalidade virtual. E porque este cunho «privado» do blogue e da relação do autor-proprietário com ele ocorre sobre o pano de fundo de uma despossessão de textos, imagens e sons em circulação na net. Ou seja, «ter um blogue» coincide como que necessariamente com «não ser autor de um blogue», já que a blogosfera é uma crítica permanente das versões mais reconhecíveis de autoria. Não existe blogue sem copy/paste, não existe blogue (nem post - à excepção deste, é claro) sem ligações e, claro, não existem blogues realmente originais, até porque os blogues existem em regime de comentário àquilo que os precede e, nessa medida, os sustenta. O verdadeiro bloguista alimenta-se, com maior ou menor voracidade, daquilo que circula.
«Tens um blogue?» não é pois, na boca de um bloguista, uma pergunta inocente ou desprendida. É antes uma pergunta que significa qualquer coisa como «Vou então escrever sobre o teu blogue», o que em rigor equivale a «escrever com o teu blogue». A coincidência de posse do medium e escrita, que definiria uma versão forte de autoria, revela-se afinal uma ilusão, pois o medium só é possuível pela escrita que nele funciona como assinatura autoral; mas esta é, desde o início, uma assinatura falsificada, já que nunca escrevemos (e nunca estamos) a sós num blogue.
Logo, «ter um blogue» é algo que está condenado a ser posto em causa por «escrever num blogue»: assim como nunca possuímos a linguagem, também nunca de facto estamos em condições de possuir um blogue.
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